Resumo
AS FILHAS DE DEMÉTER: O CORDÃO UMBILICAL DA COSMOGONIA FEMININA |
|
DISSERTAÇÃO DE MESTRADO EMCOMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA – PUCSP/1997
RESUMO
Bruxas, princesas, Evas ou Liliths, as mulheres possuem um cordão umbilical com a mãe imaginária que transcende a mãe biológica e se origina de uma ligação mais distante com a mãe primeva. O mito grego de Deméter e Perséfone desvela, com sua linguagem rica de significados, alguns elementos constitutivos da cosmogonia feminina, tais como a lua, a serpente, a morte, o nascimento e a sexualidade. É nucleado na relação amorosa entre Deméter e sua filha Perséfone, que é raptada por Hades, o deus das profundezas infernais. Deméter é uma das representações da Grande Deusa ou Grande Mãe, cultuada na Antigüidade antes do patriarcado. Paradigma das relações afetivas entre mulheres, portanto homossexuais no sentido mais amplo da palavra (genitalizadas ou não), o mito estimula reflexões sobre uma autoconsciência do feminino manifestada quando a mulher é objeto de cultivo da própria mulher na relação com seus pares de “iguais” no domínio da sexualidade. Por outro lado, ele também confronta esse "cosmos" de duplos femininos com a heterossexualidade. Resumidamente, os principais objetivos da dissertação são os seguintes: 1. constatar a sobrevivência do mito na modernidade, por meio de um mosaico, onde ele se desdobra pelas vertentes dos contos de fadas, da literatura, da arte e de uma religiosidade constituída, principalmente, pelos "Mistérios Eleusinos" que se originaram do mito; 2. mostrar a importância do mito na transformação de uma consciência de gênero, sobretudo mítica, que se processa atualmente com a emergência de uma nova significação do Ser mulher no mundo, que já incorpora outros modelos de feminilidade com novas nuanças que tendem a se afastar dos estereótipos; 3. contribuir com novos questionamentos sobre a constituição do "cosmos" feminino, a partir das relações afetivas entre mulheres que caracterizam uma linguagem própria do gênero feminino; 4. incluir na cosmogonia feminina a figura da lésbica, como a mulher que ama e cultiva a mulher, e as expressões do seu homoerotismo projetadas nas esferas míticas do imaginário sobre a sexualidade humana. 5. desdobrar as vertentes homoeróticas do mito, abrindo o leque dos ângulos em que se evidencia o cultivo afetivo da mulher pela mulher, ou da mulher pelo feminino (numa escala mais simbólica) na arqueologia desse afeto, a partir da relação mãe-filha até a relação lesbiana em suas representações culturais, de Safo a Madonna. 6. associar o imaginário sobre o homoerotismo feminino com o modo de homens e mulheres pensarem a sexualidade, detectando a importância da influência desse imaginário sobre o pensamento e a criação artística da sociedade patriarcal. A lua é o novelo onde se desenrola o cordão umbilical da cosmogonia feminina, através do mito das deusas, perfazendo os ciclos psíquicos e existenciais da mulher nas quatro fases lunares que dividem a dissertação: - Quarto minguante, no momento em que Perséfone é raptada pelo deus dos infernos e começa a desaparecer no abismo. Ação que será narrada no enredo do mito que vincula as duas deusas.
- Lua nova, quando ela permanece "eclipsada" nas entranhas da terra, vivendo como rainha nesse domínio – que representa o espaço interior e oculto do seu corpo de mulher.
- Quarto crescente, quando ela começa a retornar para a terra no renascimento das sementes que simboliza, representando também o seu aspecto Corê, uma jovem em formação (semente), que ainda não se tornou mulher (fruto). A jovem que brinca com flores num vale, irmanada arquetipicamente com outras Corês no bosque encantado dos contos de fadas: Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho e Bela Adormecida.
Os contos de fadas trazem representações estereotipadas e pedagógicas do feminino como passivo e do masculino como ativo, e ambos constituintes das relações heterossexuais desejadas como um objetivo de alcance da maturidade sexual, por meio do exercício do casamento e da procriação. É na medida em que ambas se ajustam a uma representação negativa da mulher idealizada, que ambas são marginalizadas no imaginário patriarcal com fulgurações persefonianas associadas à morte e às trevas infernais de uma sexualidade "demoníaca" e estéril, e que ambas atuam como corruptoras de uma ordem social estabelecida, desvinculando o prazer sexual da procriação, que a bruxa e a lésbica se aproximam, constituindo a imagem da antimãe, da Mãe Terrível que vampiriza o sangue menstrual, estancando a possibilidade de vida intra-uterina, utilizando-o em poções ou simplesmente deixando de utilizá-lo para a maternidade biológica obtida por meio de um exercício da heterossexualidade, oficializado e sacralizado no matrimônio cristão. Ou seja, o que encontramos claramente por trás da simbologia da representação da bruxa, além dos estudos que a apontam como a Mãe Terrível e dos aspectos ruins da mãe, é uma negação da homossexualidade feminina, expressa no inconsciente coletivo, na medida em que a bruxa comporta uma série de elementos que encontramos na mitologia que cerca o lesbianismo, e aqui me refiro a mitologia no sentido de um conjunto de idéias falsas e de superstições. A ampliação da consciência para outras esferas da sexualidade parece ser a força motora que soma outros conteúdos, mais atualizados com as novas visões de mundo, às simbologias arquetípicas.
- Lua cheia, quando ela é toda, ressuscitada no ápice da lunação e de sua potencialidade feminina, que pode se manifestar, na linguagem simbólica e flexível de uma androginia psíquica, como hetero, homo ou bissexual.
A lua cheia completará, portanto, um ciclo na conclusão desse trabalho. A lua toda evoca uma plenitude feminina obtida no ápice da lunação na fase da lua cheia, a lua inteira, que corresponderia, no universo psíquico e mítico da mulher, ao momento de conclusão de uma etapa, de uma realização ou de uma integração em seu processo cíclico de desenvolvimento. Isto não significa, obviamente, que o processo é estanque e que se encerra na lua toda. Trata-se de um simbolismo que obedece a um percurso orobórico que tem como paradigma as pegadas de Perséfone entre os planos da vida e da morte, da luz e da sombra. A cada lua cheia, a cada ápice atingido, a lua volta a minguar em novos processos de busca.
Os aspectos mítico e místico da homossexualidade e suas implicações com a cosmogonia feminina têm sido pouco abordados, ou seja, pouco se investigou sobre as relações de ambos na dimensão da sexualidade feminina. Masculino e feminino fazem parte de um conjunto mais amplo de padrões de consciência espiritual que não se vinculam apenas à união homem-mulher nem à complementaridade entre ambos visando a procriação carnal, como a ideologia religiosa judaico-cristã propagou. O lesbianismo, presente na amorosidade entre as mulheres a partir da relação mãe-filha, emerge de Safo a Madonna, passando pelos contos de fadas e pela análise de um conto inédito de Lygia Fagundes Telles. Subjacente à simbologia de um lesbianismo emergente nos anos 90, se evidenciou o anseio por uma feminilidade superlativa e compensatória no equilíbrio andrógino entre masculino e feminino, considerando-se que a sociedade patriarcal e falocêntrica tem sistematicamente reprimido o feminino em homens e mulheres. Num circuito de significações matizadas na simbologia andrógina do branco (masculino) e do vermelho (feminino), se pontuou as evidências (encobertas) do homoerotismo feminino, projetadas na constelação arquetípica do mito de Perséfone e Deméter, incluindo a figura complexa e emergente da lésbica, camuflada em perfis caricaturais desde as bruxas dos contos de fadas até o vampirismo entre cinderelas, sapatões e lesbian chics. Só mais recentemente, descoberta pela mídia, a lésbica tem sido representada com os traços de uma nova persona homossexual, mais afastada do estereótipo, e apresentando importantes vertentes míticas e metafóricas nos tempos da Aids e do retorno de Hades e Perséfone em paradigmas que se transformam e se resignificam na linguagem erótica humana e na comunicação entre gêneros. É empregada uma abordagem interdisciplinar, intercalando elementos da Psicologia, da Sexualidade Humana, das Ciências da Religião e da Semiótica da Cultura, à luz da contribuição de importantes pesquisadores, como: Mircea Eliade, Joseph Campbell, Françoise d' Eaubonne, entre outros. Como um paradigma universal e atemporal, no mito de Deméter e Perséfone os seus conteúdos simbólicos são sujeitos a transformações na medida em que, a consciência humana se expande com novas apreensões da realidade, possibilitando ao olhar enxergar através de outros ângulos – outrora submersos por interdições, principalmente no registro oculto do inconsciente – e de outras aberturas interpretativas constituídas pela vivência cultural e arquetípica desses novos conteúdos simbólicos, assimilados ao longo do tempo pelo campo psíquico e que emergem do reino sombrio e invisível de Perséfone para as esferas da linguagem.
Procurou-se encontrar nas fulgurações míticas das fases da lua, pistas persefonianas na linguagem erótica da sexualidade humana, até chegar ao âmago, ao centro visceral de um feminino elevado ao quadrado pela homossexualidade feminina. Constelação de duplos em que a mandala-vulva prateada multiplica os espelhos lunares... E o que lá se encontrou foi a conjugação de outros matizes na escala de luzes e sombras, entre o brilho da lua e os raios do sol... Isso porque a homossexualidade não está desintegrada da sexualidade humana como um todo: seus signos imaginários, suas metáforas e simbologias trafegam na diversidade da zona erótica, na linha fina da existência entre o corpo e o espírito, circunscrita na linguagem e nas imagens mentais que delineiam o universo psíquico e relacional de homens e mulheres, independentemente da orientação sexual ou até assexual de cada um... |