Incestus*

Paola Patassini

- Antologia: Conto, Raconto, Short - Story , Ed. do Escritor - São Paulo, 1983.

 

 

 Paulo, Pedro e Pérsio. Irmãos. Amantes.

Pedro disse:

– Papai era um grande artista!

Depois Paulo:

– Amava os loucos . . .

E, finalmente, Pérsio:

– Também amava os antigos gregos e sua cultura. E os romanos antigos . . . Adorava a língua latina.

Tanto gostava que colocou nos filhos nomes Greco–Latinos: Paulo Marcus, Pedro Glauco e Pérsio Claudius.

No caixão, o corpo do pai. Os cabelos brancos pareciam rendas que cobriam a cabeça. Eram ondulados. A sua imagem, sóbria. Ao redor, não muito próximos, três círios.

Pedro repetiu:

– Papai era um grande homem. Era um artista e um artista na vida ou na arte nunca é comum. Paulo herdou o talento de papai. Paulo também é ator. Mesmo jeito no palco, mesmo dom para revolucionar um espetáculo.

Pérsio:

– Lembram–se quando o assistimos no teatro? Ele mudava as regras do espetáculo . . .

Paulo:

– "Ser ou não ser", acho que não existe mais esta questão... O que importa?

Nas janelas, cortinas fechadas. Só a luz dos círios. Todos eram artistas: Pedro, pintor. Pérsio, músico. Paulo, ator. Pedro, Pérsio, Paulo. O triângulo. Falavam os três . . .

Pedro:

– As pessoas não vieram . . . As pessoas condenavam papai...

Pérsio:

– Por quê? Por quê, meu Deus? As pessoas são tolas e más...

Paulo:

– Papai era um anticonvencional. Criativo, portanto, um rico de espírito.

Pérsio:

– Ele nos educou sem mamãe. Ela não deu certo... Papai teve que ser mãe e pai, profissional, dono-de-casa, administrador... TUDO.

Paulo:

– É. Papai era diferente. Sempre teve uma expressão de irreverência com o mundo. De comandante, de superior...

Pedro e Pérsio:

– E era...

Pedro sorriu para Pérsio e afagou com brandura seus cabelos:

– Falamos juntos . . .

– É porque temos muito em comum.

Paulo percebeu uma coisa:

– O que fazem aquelas flores no caixão? Pérsio, tire aquelas flores...

– Por quê?

– Ele disse: "Eu não quero flores. Quero livros no meu caixão!"

– Ah, é mesmo. Ele pediu livros no lugar das flores. Os livros o agradavam mais. Eram seus presentes favoritos.

Tiraram as flores de cima do corpo. Pedro trouxe livros da biblioteca e então eles ornamentaram literariamente o caixão.

Paulo pegou um dos livros favoritos do pai em língua latina de que ele tanto gostava. E leu diante do ataúde, um trecho de Sêneca. Depois uma frase de Horácio:

– "Aequam memento rebus in arduis/servare mentem."**

Acometido pela emoção, principiou a chorar. Pedro o consolou:

– Não chore. Não chore, meu querido. As pessoas precisam partir... É um egoísmo não querermos que elas partam...

Paulo, agoniado, foi até o quarto e trouxe um canivete:

– Vou cortar meu dedo! Eu sempre odiei a rotina. Quero fazer o que sinto. Papai ensinava que a autenticidade costuma fugir às convenções. Que elas são a grande ilusão.

Alucinado, quase insano, no seu desejo de fugir ao inevitável, prosseguiu:

– Eu odeio a rotina! Odeio! Eu quero sentir que não sou apenas mais um boneco nesse jogo de pessoas. Nem mesmo tenho vontade de ganhar ou perder. Quero ferir alguma parte do meu corpo. Quero me sacrificar pela dor de perder papai. Certos índios faziam isso depois de uma grande perda ou desgraça. Qual era mesmo o nome do filme onde vi isso? Ah... Era "Um Homem Chamado Cavalo". Meu sacrifício vai ser esse corte no meu dedo. E talhou o dedo com o canivete.

Pedro:

– Ah, Paulo, Paulo . . . Paulo, meu querido. Não estamos num filme, nem num palco, isto aqui é um velório. Em todo caso, se você quer homenagear papai com uma tragédia grega, por que não sacrificou sua língua?  E teria sacrificado a nós dois... Ah, Paulo. . . Sua boca, sua língua que sorve minhas entranhas . . . E se materializa como uma luz misteriosa e erótica envolvendo meu corpo, minhas coxas, meu prazer... Ah, Paulo . . . Eu ainda morro nesse delírio . . . Paulo, Paulo . . .

E acariciou–o, tocando na sua boca com os dedos. Em seguida, depositou–lhe um beijo que brotou suave e quente dos seus lábios.

Pedro colocou na sala um quadro seu. Uma pintura focalizando a imagem de Édipo-Rei. Dos dedos de Pedro as imagens traziam traços estranhamente indefinidos e cores muito vivas. Em seguida, acionou o play do seu som, do seu sonho, e, então, começou a tocar a marcha fúnebre. Principiaram a dançar funestos e ao mesmo tempo encantadores e encantados ao redor do caixão, na linha fina e pulsante entre a vida, a morte e o amor. Mãos dadas. Também a mão ferida de Paulo: naquele momento era a recordação viva de uma fenda uterina mágica e criadora que os renovava, em nome do pai e dos filhos...

Tocaram–se e se amaram loucamente, mansamente mesclados em suas mãos, cabelos, olhos, bocas, corpos apolíneos e sensuais. Tudo parecia soma e poesia, mas também havia a perda do um, que era por todos... Eram três bailarinos da marcha fúnebre. Os corpos soltos e nus pareciam muito leves...

Pararam quando o telefone tocou e alguém do outro lado da linha disse:

– Meus sentimentos . . .

Não continuaram.

Pérsio olhou para o pai:

– Quero ser nu e livre como você ensinou! Quero enaltecer os gregos antigos como você enalteceu!

Começou a fazer poses imitando as esculturas gregas de nus masculinos. Paulo observou as nádegas bem feitas e amou-as como um objeto de arte que os dedos mágicos de Deus esculpiram:

– Como é lindo o seu corpo, Pérsio! Ele faz parte dessa orquestra onde você trabalha como músico. Gesticulando, movendo-se quando o som é mais profundo do que o que pode ser ouvido.

Acariciou suas nádegas carinhosamente, com a grandeza de quem compreende a arte: – Você tem um corpo de Apolo... Suas nádegas são duas peças de arte, ou melhor... Ou melhor. . .

E Pedro, o mais colorido dos três, resolveu dar a sequência:

- Ou melhor: são duas maçãs proibidas... e... por Zeus! Como é bom ser expulso do paraíso! . . .

Riram. E enquanto rapidamente se vestiam, Pedro continuou:

– Acho que o paraíso não existe . . . Não. O paraíso somos nós, Sartre não escreveu que "o inferno são os outros"?

– Mas, no aspecto moral. . .

– Ora, Paulo, você sabe o que papai pensava da moral. Que o objetivo da moral é uma maçã proibida. É apenas outra ilusão que sonega o amor.

Pérsio voltou à cena, observando:

– Paulo, você tem as pernas de papai, o mesmo andar... Lembram–se? Papai tinha um andar etéreo. . . Ele parecia um príncipe que se agigantava e virava rei a cada passo...

Chegou até Pedro:

– E você, Pedro... você herdou–lhe o brilho nos olhos e as mãos . . .

Carinhoso, tocou nas mãos de Pedro.

Pedro beijou com suavidade a testa do irmão:

– Lembranças. . . – Fitou o pai e prosseguiu:

– Lembram–se quando éramos crianças e ele nos emba­lava ao sabor da noite, cantando uma canção? Era sempre a mesma canção das histórias de heróis e semideuses que sonhávamos juntos. E quando se despedia ele nos beijava, enquanto mal dormíamos. . .

Silêncio.

Paulo olhou no relógio:

– Chegou a hora.

Olharam longamente para o rosto do pai. Prepararam–se para carregar o caixão, de suporte triangular. Fecharam a tampa suaves e mansos, quase conformados.

Tocaram as três alças de ferro com pulsos firmes.

Fortes, quase gigantes.

Levantaram o caixão. Entre um sorriso e uma lágrima, Pérsio crispou seus dedos no ataúde:

– Nós o amávamos tanto . . .


* Este conto foi publicado, originalmente, na antologia: Conto, Raconto, Short - Story, Ed. do Escritor, SP, 1983. esta versão foi atualizada em maio/2014.

** "Lembra–te de conservar o ânimo tranquilo nas situações difíceis”: ("Odes", Livro 11, 3, 1–2).